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Varejo volta a fazer pedidos firmes à indústria

Samantha Maia, César Felício e Carolina Mandl, de São Paulo, Belo Horizonte e Recife
30/03/2009

O varejo de bens duráveis voltou a fazer encomendas mais expressivas à indústria em março e espera que as vendas deste mês sejam superiores às de igual período do ano passado ou, no mínimo, que repitam aquele mês. Os planos são de crescimento em meio a uma atitude ainda bastante cautelosa quanto a prazos e forma de pagamento. A razão é a inadimplência que, para algumas redes, já cresceu e pode afetar vendas futuras. Se o risco de calote aumentou em alguns lugares, em outros (especialmente no Nordeste e regiões de menor renda), o impacto positivo do aumento de 12% no salário mínimo já chegou às lojas.

Depois de enfrentar um mês de janeiro com queda nas vendas, a Lojas Maia comemora os resultados de fevereiro e março. De acordo com Marcelo Maia, diretor comercial da rede varejista que tem 144 lojas no Nordeste, o volume vendido em fevereiro deste ano se manteve igual ao do ano passado, e o de março está se equiparando também, mas pode até encerrar o mês com crescimento de 5%. “Parece que o fator psicológico era o maior motivo da retração das compras no Nordeste. Agora, a população está vendo que não é preciso seguir o comportamento dos consumidores no exterior”, avalia.

Para o executivo, a turbulência econômica também tem afetado menos as classes C e D – público-alvo da rede – , agora com a renda reforçada pelo aumento de 12% no salário mínimo. Além disso, ao notar que a inadimplência vem se mantendo nos mesmos patamares do ano passado, a Lojas Maia decidiu voltar a anunciar de forma mais intensa o parcelamento no cartão de crédito em 24 vezes. “Por um momento, paramos de divulgar o parcelamento, esperando resultados piores da crise”, diz Maia. Do lado das encomendas, o diretor afirma que já voltou a comprar seguindo o mesmo ritmo de 2008. “Na semana passada, eu negociei com os fornecedores as compras para o mês de maio e fiz tudo apostando em vendas 10% maiores no Dia das Mães”, diz o executivo.

O crescimento de 13% em janeiro exigiu que a Lojas Cem repusesse estoques já no primeiro mês do ano. “Temos realizado encomendas semanais, de acordo com o que é vendido, então nossas compras têm sido similares ao crescimento das nossas vendas”, diz Valdemir Colleone, supervisor geral das Lojas Cem.

Em março, Colleone estima que o faturamento crescerá 15%, levando a rede a um faturamento 9% maior no primeiro trimestre. “A impressão é que a expectativa de que a crise não ia chegar no nosso ramo, por enquanto, se confirmou”, diz. Segundo ele, o varejo só deve sofrer caso o desemprego aumente muito. A rede teve resultado negativo apenas em fevereiro, quando o faturamento caiu 1% em relação ao mesmo mês do ano passado. Colleone credita a queda ao Carnaval, que caiu no fim do mês, segurando a retomada das vendas.

A varejista baiana Lê Biscuit vai fechar o faturamento de março com crescimento de 25% sobre 2008, e de 19% no trimestre. O bom resultado, porém, não é comemorado pela empresa, pois reflete a entrada de duas novas lojas a partir de maio e de dezembro do ano passado. “Se considerar apenas as lojas já existentes de janeiro a março de 2008, as vendas foram iguais às do ano passado”, diz o diretor-presidente da rede Álvaro Sant’Anna. O encarecimento do crédito e as incertezas sobre a crise econômica trouxeram cautela em relação às encomendas. “Estamos adotando uma postura conservadora, trabalhando com menos estoques para ficar com mais caixa, pois o financiamento está difícil”, diz ele.

Em janeiro, para fazer o ajuste do estoque não vendido no fim de ano, a Lê Biscuit investiu em redução de preços e aumento de parcelas. Agora, Sant’Anna diz que o parcelamento deve voltar a no máximo seis meses. “O crédito está mais caro, e por uma questão de custo não vamos trabalhar com mais que seis parcelas.” A Lê Biscuit vende brinquedos, produtos para casa, papelaria e artesanato.

Segundo levantamento feito pela Associação Comercial de Minas Gerais, 100% dos pesquisados afirmaram não ter observado crescimento de vendas nos dois primeiros meses deste ano, em comparação com o último bimestre do ano. De acordo com a diretora do Conselho de Economia da entidade, Claudia Volpini, o setor que menos sentiu a queda foi o da venda de eletrodomésticos, Ainda assim as tradicionais liquidações de estoque do mês de janeiro se prolongaram para o mês seguinte, o que é pouco usual”, comentou.

Em processo de forte expansão para fora de Minas Gerais, a Ricardo Eletro, maior rede varejista deste setor com sede em Minas, foge da unanimidade detectada pela Associação Comercial local. Segundo Rodrigo Nunes, vice-presidente da empresa, as vendas deverão registrar alta de 5% em março, em comparação com o mesmo mês do ano passado, depois de um fevereiro em que as vendas ficaram estagnadas, com crescimento próximo a zero ante fevereiro de 2008. Em janeiro, quando a Ricardo Eletro tradicionalmente faz liquidação de estoques, houve um crescimento de 8% em relação ao observado um ano antes.

“A inadimplência é um fator crítico, mas que tem sido compensado pela expansão de rede física”, disse Nunes. Em fevereiro, o índice de inadimplência na Ricardo Eletro atingiu 13%, com um atraso médio de 120 dias. No ano de 2008, a média de inadimplência foi de 9%. A empresa não alterou suas condições de venda, mantendo a mesma taxa de juros e os mesmos prazos. “O que está havendo é mais rigor na aprovação do crédito e um fortalecimento das nossas vendas por cartões de crédito, que não têm inadimplência”, afirmou.

A empresa faturou no ano passado R$ 1,8 bilhão, o que representou 25% a mais do que o observado em 2007, graças à expansão física da rede. Em 2008, vinte e seis lojas se somaram às 209 já existentes. Este ano, outras 25 devem ser abertas no Rio de Janeiro. Este processo de expansão garante um crescimento das encomendas da rede a fornecedores da ordem de 5% ao mês, segundo Nunes. “Nossa estocagem é para 55 dias e este prazo não tem sido alterado. Neste momento, estamos formando o estoque para o dia das Mães”, disse.

A crise não espantou o público dos shoppings. Segundo Luis Augusto da Silva, diretor da Associação Brasileira de Lojistas de Shopping (Alshop), as vendas do primeiro trimestre serão maiores que a do mesmo período do ano passado. Em janeiro, o movimento nos shoppings cresceu 10%, em fevereiro, 9%, e em março é esperado um resultado ainda melhor. “Pelo que conversamos com os associados, há uma certa cautela com as encomendas, mas as vendas estão boas, ainda mais considerando que as perspectivas para o começo desse ano era tenebrosas”, diz.

Outro dado positivo apareceu na pesquisa feita pela Serasa Experian, um novo indicador que mede a atividade no comércio varejista pelo número e consultas ao sistema. O indicador apontou alta de 4,5% no primeiro bimestre, puxado por eletrodomésticos e veículos. Levantamento da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) mostra um cenário menos positivo. Em fevereiro houve uma queda de 12,8% nas consultas aos Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC) e de 5,5% nas consultas ao SCPC/Cheque sobre 2008.

O mês de março veio melhor, mas ainda com queda em relação a 2008. As consultas ao SCPC na primeira quinzena deste mês pela média diária mostraram redução de 5,8% sobre março do ano passado, enquanto as consultas ao SCPC/Cheque aumentaram 2,5%. Sobre fevereiro, os resultados foram positivos, com alta de 2,2% no SCPC e de 5,2% no SCPC/Cheque.

A diferença entre o levantamento da ACSP e os resultados dos lojistas pode estar na mudança de perfil de pagamento. As consultas ao SCPC são indicadores de vendas à vista com cheque e a prazo, mas o cartão de crédito é muito representativo mesmo nas redes que usam o tradicional carnê. “É possível acreditar que as vendas têm crescido mais do que as consultas porque o cartão de crédito tem diminuído o uso de carnês e cheques”, diz Colleone, da Lojas Cem.

A rede de vestuário e artigos para cama, mesa e banho Leader manteve o ritmo de encomendas à indústria, após liquidar os estoques em fevereiro, quando concedeu descontos de até 60%. A rede fluminense, com 44 lojas em sete estados do Sudeste e Nordeste, não alterou as formas de pagamento e, a partir deste mês, passou a oferecer a possibilidade de pagar a compra em até cem dias. Com os fornecedores, os prazos também foram mantidos, mas a rede investiu em negociações para baixar o custo dos produtos. (Colaborou Ana Paula Grabois, do Rio)

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